De […] aspetos da personalidade de Pessoa ficaram abundantes marcas na sua
poesia. O próprio poeta procederia conscientemente ao deixar refletirem-se na obra as
suas preocupações mais fundas, os problemas que lhe eram trazidos pela sua apurada
sensibilidade e singular maneira de ser.
É assim que nele se verifica um permanente entrecruzar de influências do homem
para o poeta, e vice-versa. No que se refere à obra do Ortónimo, são nítidas as marcas
de isolamento, solidão, insegurança, hesitação, dúvida (“todas as coisas oscilam
à minha volta” – nota de 1910); introspeção, intimismo, fechamento sobre si, que revelam
a incapacidade de um verdadeiro relacionamento social e afetivo; melancolia,
nostalgia, angústia, tédio, pendência para a resignação, desilusão, abatimento, desalento,
infelicidade, timidez; intranquilidade, provocada por uma alma demasiado
sensível que não é possível satisfazer suficientemente; preocupação com a procura,
consciente de que não encontrará nunca; ânsia de conhecimento, de deteção da sua
própria identidade; preocupação com a racionalização constante das sensações, contí-
nuo choque entre o pensar e o sentir (“o que em mim sente está pensando”…), relacionação
constante entre vida e pensamento; tendência para o misticismo e a espiritualidade,
para o misterioso, o obscuro, o fingimento; busca do absoluto, de um sentido
para a vida; negativismo, ceticismo, inadaptação, indefinição… […]
A nível do estilo, é notória a sua permanente preocupação com a expressividade, a
musicalidade, o ritmo, a rima […].
Em muitos dos seus poemas, utiliza versos de gosto popular, aparentando simplicidade
e até ingenuidade, que contudo deverão ser interpretados com cautela, já que,
a nível de estilo, elas são veiculadas através de antíteses, trocadilhos, paradoxos, metá-
foras desconcertantes…, que em certa medida as contrariam.
É a apurada sensibilidade, subtilmente expressa, que prende nos textos mais autênticos
do Pessoa-Ortónimo. A profunda conjugação dos níveis do conteúdo e da expressão
levam o leitor à vigência da poesia e a fingir com ele a dor que deveras sente.
SILVA, Lino Moreira da, 1989. Do Texto à Leitura (Metodologia da Abordagem Textual) – Com a Aplicação à Obra de Fernando Pessoa. Porto: Porto Editora
Expressões • Português • 12.° ano